Publicado em 30/10/2026 às 11h04 atualizado em 30/10/2026 às 11h11 - Indaiatuba Educação
Flávia Girardi
"Eu tive que dar um passo atrás para pôr outras pessoas na frente". Ele disse isso sem pensar no peso da frase. Sentado à minha frente, contando sua história como quem narra uma aventura divertida da qual você mesmo faz parte.
Pouca gente percebe, mas essa talvez seja a maior acrobacia de um artista. Não é caminhar sobre uma corda. Não é equilibrar-se em uma perna de pau. Muito menos desafiar a gravidade em um tecido. É vencer o próprio ego.
Enquanto muitos passam a vida tentando ser insubstituíveis, Jader de Morais escolheu construir um legado capaz de caminhar sem ele no centro do picadeiro.
Quem conhece o Tio Bocão enxerga o sorriso largo, as brincadeiras, os espetáculos e as lembranças das festas infantis que marcaram gerações em Indaiatuba. Mas por trás do personagem existe um educador que descobriu, há mais de vinte anos, que o circo nunca foi apenas entretenimento. Era uma forma de ensinar crianças a acreditar em si mesmas.
Foi em 2004 que nasceu o projeto que transformaria a história do circo na cidade. "Eu queria ser o professor que eu não tive para essas crianças", conta Jader. Em uma época em que quase não existiam atividades de contraturno, ele levou a arte circense para dentro da educação e se tornou pioneiro em Indaiatuba. "Sou o pioneiro da história do circo em Indaiatuba. O circo começou comigo”, narra de forma quase infantil, cheio de alegria em compartilhar.
Mas o tempo mostrou que o maior espetáculo não estava nas apresentações. Estava na transformação silenciosa de quem subia pela primeira vez em um tecido, caminhava sobre uma perna de pau ou descobria que conseguia dar uma cambalhota depois de acreditar que nunca seria capaz.
Existe um momento curioso em toda aula de circo. Antes de ensinar a subir, aprende-se a cair.
Parece contraditório, mas talvez seja uma das maiores lições para a vida. "A gente ensina a cair. A ideia sempre é pensar na segurança."
No picadeiro, cair deixa de ser fracasso. Passa a ser aprendizado. O corpo entende aquilo que, muitas vezes, a mente demora anos para compreender: que equilíbrio não significa nunca perder a estabilidade, mas saber encontrá-la novamente.
É justamente aí que o desenvolvimento motor encontra o desenvolvimento socioemocional. Ao desafiar o próprio corpo, a criança fortalece coordenação, lateralidade, consciência corporal e equilíbrio. Mas fortalece também algo invisível: autoestima, coragem, autonomia, persistência e confiança. Jader costuma dizer que uma criança tímida muda completamente quando sobe em uma perna de pau. Ela cresce. Não apenas em centímetros. Ela muda a forma como enxerga o mundo e, principalmente, como passa a enxergar a si mesma.
"O circo é para todos", explica. Quando um movimento parece impossível, o caminho não é excluir a criança, mas criar ferramentas para que ela consiga chegar até ele. O objetivo nunca é formar artistas. É desenvolver pessoas.
Essa filosofia também transformou a participação das famílias. Enquanto muitos espaços fecham as portas para os pais, no circo de Jader elas permanecem abertas.
"O pai senta praticamente no colchão", conta. Ao acompanhar cada conquista, ele deixa de enxergar apenas o medo da queda e passa a confiar no processo que levou o filho até ali.
"Talvez o circo seja esse lugar onde a criança pensa: 'Eu posso'."
Depois de duas décadas formando crianças, famílias e profissionais, veio uma decisão que resume quem Jader se tornou. "Eu tive que dar um passo atrás para pôr outras pessoas na frente."
Hoje, o espaço abriga novos professores, novas histórias e novos protagonistas. Não há cópias do Tio Bocão. Há pessoas autorizadas a serem quem são, mantendo viva a filosofia construída desde 2004.
Porque o verdadeiro artista não é aquele que ocupa sozinho o centro do palco. É aquele que abre a cortina para que outros também possam brilhar. E talvez esse seja o maior espetáculo que o circo já apresentou em Indaiatuba.
Tio Bocão – Circo e Lazer - Rua Humberto Milani, 251, Indaiatuba
@tiobocaooficial
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