Publicado em 02/11/2026 às 09h00 Indaiatuba Educação
alguns sinais podem indicar que vale a pena observar o desenvolvimento da linguagem com mais atenção
Foto: Divulgação
Os primeiros sons de um bebê começam muito antes das primeiras palavras. Ainda na gestação, ele já escuta a voz da mãe, percebe ritmos, reconhece melodias e inicia um processo essencial para o desenvolvimento da linguagem. É justamente por isso que especialistas têm chamado a atenção para um hábito cada vez mais comum dentro das famílias: oferecer telas para crianças muito pequenas como forma de distração.
Se por um lado celulares e tablets parecem acalmar por alguns minutos, por outro podem estar substituindo aquilo que nenhuma tecnologia consegue reproduzir: a troca de olhares, a conversa, o canto e a interação humana.
Pesquisas internacionais reforçam essa preocupação. Um estudo realizado pela Universidade de Toronto, em parceria com o Hospital for Sick Children, no Canadá, identificou que cada 30 minutos adicionais de uso diário de dispositivos móveis aumenta em 49% o risco de atraso na fala expressiva — a capacidade da criança de formar palavras e pequenas frases. No Brasil, o cenário também mudou rapidamente: entre 2015 e 2024, a proporção de crianças de até dois anos conectadas à internet passou de 9% para 44%.
Para a fonoaudióloga e musicista Cintya Soares, o impacto das telas vai além do tempo de exposição. O maior problema está naquilo que elas deixam de oferecer.
"A audição é o primeiro sentido que o bebê desenvolve ainda dentro da vida uterina. Por volta da 20ª à 25ª semana de gestação, ele já começa a perceber os sons externos. Quando colocamos uma tela no lugar da conversa, da música e do canto, retiramos justamente os estímulos que o cérebro infantil mais precisa nessa fase", explica.
A orientação da Sociedade Brasileira de Pediatria é clara: crianças menores de dois anos não devem ser expostas às telas. Entre dois e cinco anos, o uso deve ser limitado a, no máximo, uma hora por dia, sempre com acompanhamento dos pais ou responsáveis.
Na prática, alguns sinais podem indicar que vale a pena observar o desenvolvimento da linguagem com mais atenção. Dificuldade para juntar palavras após os dois anos, pouco contato visual durante as brincadeiras, dificuldade de manter a atenção ou irritação intensa quando o aparelho é retirado são comportamentos que merecem acompanhamento. Eles não representam, isoladamente, um diagnóstico, mas podem indicar a necessidade de uma avaliação especializada.
Segundo Cintya, um dos recursos mais simples e eficientes para estimular a comunicação continua sendo um dos mais antigos: cantar.
Mas ela faz uma distinção importante entre deixar uma música tocando ao fundo e transformar esse momento em uma experiência compartilhada.
"O importante não é apenas a criança ouvir. Enquanto alimenta o bebê, cante. Quando estiver com ele no colo, cante também. Nomeie os objetos, faça gestos, olhe nos olhos. A música é o meio, não o fim."
Cantigas populares, músicas curtas, repetitivas e acompanhadas de movimentos costumam ser as mais indicadas para essa fase, justamente porque favorecem a participação da criança. Mais do que ampliar repertório musical, elas fortalecem vínculos, estimulam a atenção conjunta e enriquecem o vocabulário de forma natural.
Ainda assim, a especialista alerta que a música não substitui o acompanhamento profissional quando existem sinais persistentes de atraso na fala.
"A música pode fazer parte do estímulo, mas não substitui a investigação. Se uma criança de dois anos ainda não forma frases simples, vale investigar. Pode ser falta de estímulo, excesso de telas, uma questão auditiva ou outro aspecto do desenvolvimento. O pediatra ou o foniatra é quem vai conduzir essa avaliação."
Para ela, o desenvolvimento infantil acontece de forma mais consistente quando diferentes profissionais trabalham em conjunto. Pediatras, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, musicoterapeutas, educadores e professores de música podem contribuir, cada um dentro de sua área de atuação.
"Nada substitui o trabalho do outro, mas tudo agrega", conclui.
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