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QUANDO A ESCOLA DEIXA DE SER A DONA DAS RESPOSTAS

Para o educador Éliton Meireles, a Inteligência Artificial não diminui o papel da escola: muda a pergunta sobre o que significa aprender

 Publicado em  02/11/2026 às 09h00  Indaiatuba  Educação


Gosto de pensar que a Cultura Maker dá chão à IA, enquanto a IA amplia as possibilidades da Cultura Maker.

Gosto de pensar que a Cultura Maker dá chão à IA, enquanto a IA amplia as possibilidades da Cultura Maker.
Foto: Divulgação

Durante muito tempo, saber era chegar à resposta certa. Era pesquisar, memorizar, calcular, escrever, resolver. Hoje, máquinas fazem tudo isso em segundos e, diante delas, talvez a escola precise ensinar algo ainda mais essencial: o que fazer depois que a resposta chega.
É nessa fronteira entre tecnologia, conhecimento e autoria que está o trabalho do matemático e doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) Éliton Meireles, pesquisador que há mais de duas décadas acompanha as transformações provocadas pelas tecnologias digitais na educação. Antes mesmo de a Inteligência Artificial Generativa ocupar o centro das conversas, sua trajetória já passava por softwares de geometria dinâmica, bioestatística, objetos de aprendizagem, ambientes virtuais, robótica educacional e Cultura Maker.
No doutorado pela USP, aprofundou suas pesquisas sobre Cultura Maker e formação de professores, realizando parte do trabalho na Graduate School of Education da Stanford University. A experiência internacional continuou junto ao Transformative Learning Technologies Lab, ligado ao Teachers College da Columbia University. De volta ao Brasil, desenvolveu pesquisa de pós-doutorado no Núcleo de Informática Aplicada à Educação da Unicamp (NIED) e, como diretor educacional da Amado Maker, atua também junto a redes públicas de ensino.
Mas, apesar do vasto currículo, Éliton Meireles pede que deixemos os títulos de lado. Entre amigos, ele prefere ser Tom. 
É com ele que conversamos sobre Inteligência Artificial, Cultura Maker, professores, autoria, aprendizagem e os desafios de preparar crianças e jovens para um mundo em que talvez a pergunta mais importante já não seja “qual é a resposta?”, mas “o que você pensa a partir dela?”.

RE: Tom, sua trajetória começa na Matemática, atravessa diferentes tecnologias educacionais, encontra a Cultura Maker e chega hoje à Inteligência Artificial. O que conecta esse percurso e como essas duas últimas frentes, Educação Maker e IA, podem se fortalecer mutuamente?

O fio sempre foi a aprendizagem. As tecnologias mudaram, mas algumas perguntas permaneceram: o estudante está apenas recebendo informação ou produzindo algo com ela? Está seguindo instruções ou tomando decisões? Existe autoria nesse processo?
A Cultura Maker aprofundou para mim uma ideia ligada ao construcionismo de Seymour Papert: fazer também é uma forma de pensar. Quando alguém constrói, programa ou tenta fazer algo funcionar, precisa testar, errar e rever suas hipóteses. É aí que aparece a resistência da realidade: uma IA pode afirmar que um projeto funcionará, mas o robô talvez não ande ou o circuito falhe. O fazer impede que a resposta pronta encerre o pensamento.
Ao mesmo tempo, a IA pode ampliar as possibilidades de criação, ajudando a compreender erros, explorar alternativas ou aprender novas técnicas. Gosto de pensar que a Cultura Maker dá chão à IA, enquanto a IA amplia as possibilidades da Cultura Maker. O novo é que agora a máquina começa também a participar do processo intelectual. Estamos aprendendo a pensar com máquinas, sem renunciar à autoria humana.

RE:Quando você fala em “pensar com máquinas”, chegamos a uma questão central da sua pesquisa atual. É daí que surge a ideia de uma escola na era pós-resposta?

Sim. Durante muito tempo, grande parte da escola esteve organizada em torno da resposta correta. Hoje, máquinas conseguem produzir respostas sofisticadas em segundos.
Isso não torna o conhecimento menos importante. Torna-o ainda mais necessário. Precisamos perguntar: essa resposta é boa? De onde veio? Quais evidências a sustentam? O que fazemos com ela?
A escola pós-resposta não é uma escola sem respostas. É uma escola em que responder faz parte de um processo maior: perguntar, compreender, analisar, criar e decidir.

RE:Se responder já não pode ser o ponto de chegada, o papel do professor também precisa mudar? O que acontece quando o estudante passa a ter uma Inteligência Artificial disponível praticamente o tempo inteiro?

O professor se torna ainda mais importante, embora seu papel também se torne mais sofisticado. Tenho trabalhado com a ideia do professor como designer de experiências de aprendizagem.
Ele não precisa competir com a IA para descobrir quem responde mais rápido. Seu papel é criar situações em que uma resposta precise ser analisada, confrontada e transformada; experiências em que o estudante tenha de investigar, fazer escolhas, justificar decisões e produzir algo próprio.
Por isso me preocupa a ideia de que a escola precise correr para adotar cada nova tecnologia. A pergunta deveria ser outra: que atividade humana essa tecnologia amplia, reorganiza ou substitui, e sob quais condições isso melhora a aprendizagem? Em alguns casos, a IA amplia possibilidades. Em outros, entrega antecipadamente aquilo que o estudante precisava descobrir.

RE:Essa preocupação com o sentido pedagógico da tecnologia parece atravessar toda a sua trajetória. Depois de experiências na USP, na Stanford University, no Teachers College da Columbia University e na Unicamp, além do trabalho direto com escolas públicas, o que contextos tão diferentes lhe ensinaram sobre inovação educacional?

Contextos muito diferentes me ensinaram que inovação educacional não está na novidade da ferramenta, mas na qualidade das relações que ela ajuda a reorganizar. A pergunta central continua sendo pedagógica: que experiências de aprendizagem se tornam possíveis? Quem ganha mais autonomia? Que tipo de autoria, colaboração e reflexão aquele ambiente favorece?
Também aprendi que nenhuma inovação existe fora de contexto. Uma mesma tecnologia pode produzir efeitos muito distintos dependendo da formação docente, da cultura da instituição, das condições materiais e das escolhas pedagógicas. Tecnologia de ponta inserida em uma pedagogia pobre continua produzindo uma experiência pobre. Inovar, para mim, é criar condições para que tecnologia, currículo e pessoas façam sentido juntas.

RE:Trazendo essa discussão para mais perto: quando você olha para Indaiatuba, que oportunidades e desafios enxerga para a educação da cidade diante dessas transformações?

Vejo Indaiatuba em uma posição favorável para avançar nessa discussão. A cidade reúne condições para integrar novas tecnologias à educação de maneira cada vez mais articulada à formação de professores, ao planejamento pedagógico e às experiências de aprendizagem dos estudantes.
Mais do que ampliar a presença de IA, robótica ou espaços maker nas escolas, o passo mais interessante é fazer com que esses recursos se tornem parte de propostas pedagógicas consistentes, nas quais professores e estudantes possam explorar, criar, investigar e produzir com tecnologia de forma responsável e significativa.

RE:E esse vínculo com Indaiatuba ganhou recentemente também uma dimensão cultural, com sua entrada na Academia de Letras de Indaiatuba. O que representa fazer parte da ALI e, especialmente, ocupar uma cadeira que tem Paulo Freire como patrono?

Representa um vínculo ainda mais profundo com a cidade que escolhi para viver. Entrar para a ALI é transformar pertencimento em participação: ajudar, de alguma forma, a escrever parte da vida cultural e intelectual da cidade.
E claro, ocupar a cadeira que tem Paulo Freire como patrono é especial. Freire nos lembra que educar é aprender a ler o mundo com curiosidade, rigor, diálogo e compromisso com a autonomia, algo ainda mais necessário quando passamos a dividir tarefas de escrita, criação e pensamento com máquinas.
As tecnologias continuarão mudando, mas algumas perguntas resistem: que seres humanos queremos formar? Que mundo desejamos construir? Talvez, entre algoritmos, livros, salas de aula e cidades, continuemos buscando a mesma coisa: compreender melhor o mundo para também sermos capazes de transformá-lo.

RE:Para encerrar nossa conversa, quando você pensa no futuro da educação, que mensagem gostaria de deixar para professores e estudantes?

Que usem a tecnologia para ampliar possibilidades, não para encurtar aquilo que vale a pena descobrir. A Inteligência Artificial pode abrir caminhos e acelerar processos, mas aprender continuará exigindo curiosidade, dúvida, escolha e responsabilidade.
Talvez a mensagem principal seja esta: não tenham medo de aprender com as máquinas, mas não entreguem a elas aquilo que nos cabe como seres humanos.
O futuro da educação não será definido apenas pelo que as máquinas serão capazes de fazer, mas pelo que nós escolheremos fazer com elas.
 

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  • Gosto de pensar que a Cultura Maker dá chão à IA, enquanto a IA amplia as possibilidades da Cultura Maker.

    Gosto de pensar que a Cultura Maker dá chão à IA, enquanto a IA amplia as possibilidades da Cultura Maker.
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