Publicado em 02/11/2026 às 09h00 Indaiatuba Educação
Para o professor, coordenador pedagógico e doutor em Educação Arthur V. F. Furtado, esse desgaste não é consequência de um único fator, mas de um conjunto de transformações
Foto: Divulgação
A sala de aula sempre foi um espaço de construção do conhecimento. Nos últimos anos, porém, para muitos educadores ela também passou a representar um ambiente de tensão constante. Entre cobranças por resultados, excesso de burocracia, conflitos com famílias, violência escolar e a necessidade de lidar diariamente com desafios sociais cada vez mais complexos, ensinar deixou de ser apenas uma profissão exigente para se tornar, em muitos casos, um fator de adoecimento.
Os números ajudam a dimensionar essa realidade. Uma pesquisa divulgada pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) revelou que 97,6% dos profissionais da educação associam algum nível de sofrimento emocional ao trabalho. Quase metade dos entrevistados afirma já ter enfrentado episódios de ansiedade ou síndrome do pânico, enquanto cerca de um quarto precisou se afastar das atividades por questões relacionadas à saúde mental.
Por trás das estatísticas existem histórias que raramente chegam ao conhecimento da sociedade. São professores que levam trabalho para casa todos os dias, convivem com jornadas extensas, acumulam funções administrativas, enfrentam salas superlotadas e, muitas vezes, sentem-se responsabilizados por problemas que ultrapassam os limites da escola.
Para o professor, coordenador pedagógico e doutor em Educação Arthur V. F. Furtado, esse desgaste não é consequência de um único fator, mas de um conjunto de transformações que, ao longo dos anos, ampliaram a pressão sobre os profissionais da educação.
Segundo ele, o professor passou a ocupar uma posição contraditória: é visto como peça fundamental para transformar a sociedade, mas frequentemente trabalha em condições que dificultam justamente o exercício dessa missão. A cobrança por resultados convive com estruturas precárias, excesso de demandas burocráticas e pouca valorização profissional.
Essa percepção nasceu tanto da experiência em escolas públicas e particulares quanto das pesquisas desenvolvidas pelo educador durante o doutorado. Ao observar a rotina escolar, Arthur identificou um processo de invisibilização do sofrimento psicológico vivido pelos docentes, muitas vezes tratado como algo natural da profissão.
Outro aspecto apontado por especialistas é que o papel do professor se expandiu significativamente. Além de ensinar conteúdos, hoje ele atua como mediador de conflitos, orientador emocional, gestor de sala de aula, interlocutor das famílias e responsável por inúmeras tarefas administrativas. A multiplicidade de funções, sem que haja tempo ou estrutura suficientes para desempenhá-las, favorece o surgimento do esgotamento físico e emocional.
O resultado aparece não apenas no aumento dos afastamentos por questões de saúde mental, mas também na dificuldade de permanência na carreira. Cada vez mais profissionais relatam sintomas como insônia, crises de ansiedade, sensação constante de incapacidade, exaustão e perda do entusiasmo pelo trabalho.
Especialistas defendem que enfrentar esse cenário exige mais do que oferecer atendimento psicológico aos educadores. É necessário discutir políticas de valorização profissional, melhores condições de trabalho, redução da sobrecarga administrativa, ambientes escolares mais seguros e fortalecimento das redes de apoio dentro das próprias instituições de ensino.
O adoecimento dos professores reflete um desafio coletivo. Afinal, quando quem ensina perde as condições de exercer plenamente seu trabalho, toda a comunidade escolar é impactada.
Foi justamente essa reflexão que motivou Arthur V. F. Furtado a transformar anos de pesquisa e vivência em uma obra de ficção. Em "Queimem todos os professores: Contos do labirinto pedagógico-burocrático", o autor utiliza uma narrativa distópica para retratar situações que, embora ficcionais, dialogam com dilemas bastante presentes na realidade das escolas brasileiras. O livro serve como ponto de partida para uma discussão que ultrapassa a literatura: a urgência de olhar para a saúde mental de quem dedica a vida a formar novas gerações.
Valorizar a educação passa, inevitavelmente, por valorizar seus profissionais. E isso significa compreender que cuidar da saúde emocional dos professores não é apenas uma questão de bem-estar individual, mas um investimento na qualidade da aprendizagem e no futuro da própria sociedade.
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