Publicado em 21/09/2026 às 11h42 Indaiatuba Gastronomia
Em recente inauguração, nova unidade da Casa da Esfiha marca mais um capítulo na história da rede
Foto: Divulgação
GASTRONOMIA
ANA PAULA KUNTZ
Quem vê um restaurante cheio, bem avaliado e em funcionamento há anos pode imaginar que seus gestores já conquistaram uma rotina tranquila. A impressão, porém, esconde uma realidade bem mais complexa: no empreendedorismo gastronômico, manter um negócio de pé pode ser tão desafiador quanto colocá-lo em funcionamento.
Em Indaiatuba, é exatamente isso que acontece. A gastronomia tem se mostrado um setor próspero. Para ter uma dimensão desse mercado, vale observar os números divulgados pela Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel RMC). Em junho de 2026, o setor de alimentação fora do lar criou 430 empregos formais na Região Metropolitana de Campinas, sendo que Indaiatuba teve o segundo maior saldo da região em junho, com 62 novos postos. Dados da Receita Federal apontavam, em 20 de fevereiro de 2026, 820 empresas ativas no município com o CNAE 5611-2/01, de “Restaurantes e similares”, das quais 427 têm restaurante como atividade principal.
Diante dessa pungência, a própria Prefeitura de Indaiatuba vem criando espaços para dar visibilidade a esses negócios ao promover eventos como o Festival de Inverno, em que estabelecimentos locais foram convidados a participar de uma categoria específica de pratos da cidade, associando gastronomia, cultura e economia. Outras iniciativas municipais vêm explorando o potencial da alimentação e das bebidas como parte da experiência turística de Indaiatuba. Um exemplo desse movimento está na cerveja artesanal. Em julho, Indaiatuba passou a integrar oficialmente a Rota da Cerveja do Estado de São Paulo, iniciativa que reúne mais de 90 produtores e busca fortalecer o turismo cervejeiro e a produção regional. A cidade entrou no roteiro com duas cervejarias artesanais, a Cervejaria Louvada e a Itaici Cervejaria.
Apesar de tudo, os mesmos negócios que contratam, investem e conquistam clientes precisam lidar com custos elevados, inflação, dificuldade de repassar preços e margens apertadas. Em levantamento nacional da Abrasel, 21% dos empresários consultados relataram operar com prejuízo, enquanto 32% disseram não ter conseguido repassar integralmente a inflação aos preços dos cardápios nos 12 meses anteriores.
Nesse intervalo entre oportunidade e dificuldade há espaço para sucesso, e é isso o que mostram as quatro histórias reunidas nesta reportagem. Empresários de Indaiatuba que encontraram caminhos para fazer seus negócios prosperarem, enfrentando desafios comuns a todo o setor, mas também circunstâncias particulares que tornam suas trajetórias ainda mais significativas.
JOÃO HÉLIO
Do chão da cozinha ao sonho realizado
Quando chegou a São Paulo, aos 18 anos, João Hélio Batista de Oliveira não tinha dinheiro nem onde dormir. Depois de deixar a família, no Norte de Minas, passou duas noites na rua, na região do Ipiranga. Na época, seu maior sonho nem passava perto de ser um empresário de sucesso na gastronomia, dono de uma rede formada por oito unidades como hoje é a Casa da Esfiha, especializada em culinária árabe. Seu maior desejo era assistir a uma apresentação dos Três Tenores - Plácido Domingo, José Carreras e Luciano Pavarotti, artistas que João conhecia só pelas propagandas. Foi também ali que começou a construir a trajetória que décadas depois o levaria a comandar.
Sétimo de dez irmãos, João conta que deixou a casa do pai escondido rumo à capital paulista, onde conseguiu seu primeiro emprego como ajudante de limpeza, na Esfiha Imigrantes. Dedicado, passou por produção, balcão, atendimento e gerência. Foram dez anos aprendendo, na prática, todos os lados de um negócio.
A experiência deu a ele confiança para uma primeira tentativa de ter o próprio negócio, em São Paulo. Mas o sonho se traduziu em dois anos de contas no vermelho, o que, para João, não foi motivo para desistir, mas um momento para recomeçar. Em 1997, apostou no interior, mudando-se para a cidade onde já morava sua irmã, Indaiatuba. Foi onde seu pequeno restaurante encontrou a prosperidade, que João compartilha com cerca de 300 funcionários.
Para ele, não bastava ter dinheiro ou uma boa ideia. Era preciso conhecer o negócio, entender suas dificuldades e estar disposto a enfrentar os desafios.“O dono precisa saber fazer melhor. Acredito que ter essa humildade e demonstrar esse conhecimento é o que transmite confiança para a equipe e nos permitiu expandir, com pessoas que estão há mais de 20 anos na equipe”, afirma.
Porém, ele diz que o mais difícil não é crescer, mas se manter. “Os desafios mudam, mas não acabam. Mas eu realmente não gosto de nada fácil, adoro desafios.” Assim sendo, a rede deu mais um passo à expansão e acaba de ganhar uma unidade, recém inaugurada na Avenida Conceição.
Com essa história de superação, João pôde, inclusive, realizar o antigo sonho de assistir ao show do de um dos três tenores, Andrea Bocelli, ao vivo e presente na “casa” do artista - a Toscana, na Itália. “Foi surreal”, conta. Naquele momento, lembrou do jovem de 18 anos que tinha pouco mais que uma mochila e um desejo de mudar de vida.
DANI
Um sonho de dez anos, servido à mesa
A história do Tuia Armazém começou muito antes de o restaurante abrir as portas. Começou com um sonho compartilhado por Daniela de Paula Amstalden e José Donato Amstalden: construir juntos um negócio dedicado à gastronomia. Foram dez anos de planejamento até que, em 2019, o sonho finalmente saiu do papel.
A escolha do endereço acrescentou outra camada à história. O restaurante funciona na antiga sede da Fazenda Bela Vista, em um espaço cuja construção remonta a 1912 e que está ligado à família Amstalden há mais de um século. A antiga tulha, onde o café era beneficiado e armazenado, foi preservada e hoje abriga o restaurante.
Mas o Tuia nasceu antes daquele endereço. Daniela vem de uma família de comerciantes e conta que, desde criança, sonhava em ter um restaurante. José, que trabalhava na indústria, compartilhava a paixão pela gastronomia. Antes de apostar no empreendimento maior, os dois fizeram um teste: em 2013, abriram o Tuia Café, no Jardim Pau Preto. O espaço pequeno ganhou almoço, que rapidamente se tornou um sucesso. Três anos depois, veio a decisão de partir para o restaurante que haviam planejado por uma década.
O casal se preparou com cursos de gestão e gastronomia e assumiu junto a operação. Só não poderia imaginar que enfrentaria uma pandemia. “Foi o momento mais complicado, pois ela chegou três meses após a inauguração”, conta Daniela. Ainda assim, o casal encontrou força justamente nas pessoas que ajudaram a construir o Tuia: clientes e colaboradores. Durante a crise, nenhum funcionário foi desligado, segundo a proprietária.
Hoje, o restaurante recebe entre 600 e 800 pessoas por final de semana. A equipe de sete funcionários durante a semana chega a 20 nos dias de maior movimento. Para Daniela, porém, o sucesso não se resume aos números. “Nosso maior desafio é a fidelização mesmo. É fazer com que nossos clientes sintam vontade de voltar.”
Por isso, o negócio é encarado como uma construção permanente. Feedbacks fazem parte da rotina, assim como a disposição para mudar. “A gente erra, aprende, muda o que precisa e começa de novo. E isso é constante.”
DAISHO
Da piscina ao balcão: a trajetória de quem aprendeu a não desistir
Antes de comandar um dos restaurantes japoneses mais conhecidos de Indaiatuba, Paulo Shirano aprendeu a competir dentro de uma piscina. Aos 13 anos, deixou o Brasil sozinho para estudar e treinar nos Estados Unidos. Sem falar inglês, passou os primeiros meses isolado, pedindo à mãe uma passagem de volta, mas ficou: concluiu os estudos de quatro anos no país e só depois voltou ao Brasil, para se dedicar ao esporte.
Foi nesse ambiente, como atleta e treinador, que aprendeu algumas das lições que levaria para a vida empresarial: disciplina, dedicação, competitividade e, principalmente, a capacidade de lidar tanto com a vitória quanto com a derrota. “O esporte foi o que me esculpiu. Foi a base para eu não desistir de nada até hoje.”
A gastronomia entrou na história quase por acaso. Paulo sonhava em abrir um sports bar, buscando juntar o clima dos esportes com algo que parecia muito promissor: vender cerveja. “Eu via aquela margem de lucro enorme e me parecia um negócio muito rentável.” Em 2000, decidiu transformar a ideia em negócio. Sem conhecimento de gestão, viu o empreendimento desmoronar em apenas seis meses. A saída veio de uma parceria com a própria família, que já atuava com restaurantes japoneses. em Campinas. Nasceu a “noite de comida japonesa” dentro do bar, que aos poucos ganhou espaço. O negócio foi se transformando até que, em 2008, surgiu o Daisho.
A trajetória, porém, continuou sendo feita de mudanças. Em 2015, ele percebeu que o crescimento de Indaiatuba exigia um espaço maior e com estacionamento. A decisão levou à mudança de endereço, concluída em 2018. “Essa virada foi determinante para a nossa sobrevivência.”
Pouco depois veio a pandemia — e outra transformação. Ao analisar o mercado, Paulo percebeu que estava competindo no mesmo espaço que muitos outros restaurantes. Em vez de disputar na mesma modalidade, decidiu investir numa transformação. “Eu me vi na mesma piscina que todo mundo e pensei: ‘Eu preciso mudar’.”
O Daisho passou a adotar uma linha de padrão mais alto, com uma proposta baseada em qualidade e experiência. O restaurante ampliou o cardápio e, recentemente, incorporou o omakase (em que o cliente não escolhe os pratos do cardápio; em vez disso, ele confia inteiramente no chef para criar uma sequência exclusiva, geralmente servida no balcão) - um diferencial que coloca o Daisho em destaque não apenas em Indaiatuba, mas em toda região
A mudança não ficou restrita à cozinha. Ao longo dos anos, ele também precisou rever a própria forma de administrar. Uma consultoria o fez perceber que muitos dos problemas atribuídos à equipe estavam, na verdade, na gestão. “Eu acho que os funcionários são espelhos do que a gente é e do que a gente faz. É preciso ter humildade para reconhecer que o aquillo que foi feito para chegar até aqui não é necessariamente o que vai fazer você chegar ao próximo nível.”
Depois de mais de duas décadas na gastronomia, a maior lição talvez seja a mesma que aprendeu ainda adolescente, na piscina: estar preparado para competir, perder, aprender e tentar novamente. “Sorte é estar preparado quando a oportunidade aparece.”
FRAN
De panela lavada a uma história de sucesso na gastronomia
Antes de comandar o Caipirão, restaurante que hoje reúne cerca de 100 funcionários e atende mais de 12 mil clientes por semana e tem um dos filés à parmegiana mais famosos da cidade, Fran Teixeira começou a construir sua trajetória muito longe do salão onde hoje recebe famílias e empresários.
Vinda do interior da Paraíba, deixou sua terra ainda adolescente, aos 15 anos, em busca de novas oportunidades. Em São Paulo, um dos primeiros trabalhos foi lavando panelas em uma cozinha industrial. Foi ali, observando a rotina e o funcionamento de um negócio, que começou a aprender.
A gastronomia já fazia parte de sua vida. Em Itu, conheceu o marido, Felisberto, que trabalhava como chef de cozinha. Os dois abriram o primeiro restaurante ainda nos anos 1990. Vieram os filhos, mudanças e também as dificuldades. Antes de chegar ao Caipirão, Fran enfrentou duas falências.
Em 2002, já em Indaiatuba, o casal começou a construir o restaurante que se tornaria a principal marca da trajetória de Fran. A ideia era simples: oferecer comida de verdade, sabor e acolhimento, criando um lugar onde as pessoas se sentissem em casa.
Mas o caminho ainda teria outros momentos difíceis. Cerca de três anos depois da abertura, o negócio esteve novamente perto de quebrar. Foi quando Fran, em meio ao desespero, recorreu à fé. Fez um pedido a Nossa Senhora Aparecida e, segundo ela, encontrou forças para continuar. “A história não acabou, o desejo não acabou, o sonho só aumentou.”
A partir dali, trabalho e persistência continuaram lado a lado. Fran permaneceu à frente da operação, acompanhando equipe, clientes, fornecedores e cada detalhe do restaurante. Com o tempo, o Caipirão cresceu e se tornou uma marca conhecida em Indaiatuba, tendo o filé à parmegiana como um de seus símbolos.
Em 2022, Fran perdeu o marido, parceiro também na construção do negócio. A história, porém, continuou. Nos anos seguintes, ela manteve o restaurante em expansão e passou a olhar para novos projetos. Em 2026, o Caipirão chegou a Salto com uma nova unidade.
Para Fran, crescer trouxe desafios diferentes. “O sucesso não elimina os problemas. Ele muda o tamanho deles.” Se antes a preocupação era fazer o negócio sobreviver, hoje é crescer sem perder a essência, mantendo qualidade, atendimento e a identidade construída ao longo de mais de duas décadas.
E é justamente nas pessoas que ela encontra uma das maiores recompensas. Ver famílias comemorando aniversários, amigos se reencontrando ou clientes retornando com quem amam é, para ela, parte do significado de ter escolhido a gastronomia.
Mais do que vender refeições, Fran acredita que um restaurante oferece experiências — e constrói memórias.
Hoje, olhando para a trajetória que começou com panelas para lavar e passou por falências, recomeços, perdas e conquistas, ela sabe que cada etapa teve seu papel. “A fé inabalável junto com o trabalho podemos mover montanhas.”
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