Publicado em 02/11/2026 às 09h00 Indaiatuba Educação
Mais do que ensinar uma modalidade esportiva, o projeto nasceu com a intenção de trabalhar aspectos que fazem parte da formação dos jovens
Foto: Divulgação
Gabriele Domingues
Em uma escola, nem todo aprendizado acontece diante de um quadro, entre livros ou durante uma aula convencional. Às vezes, ele começa quando o aluno coloca um kimono, pisa no tatame e entende que, para avançar, precisa respeitar regras, reconhecer seus limites e também confiar no outro.
É essa proposta que está sendo experimentada na Escola Estadual Randolfo Moreira Fernandes, em Indaiatuba. No dia 30 de setembro, o projeto de jiu-jitsu completou cinco meses, levando a prática esportiva para o contraturno dos estudantes e transformando a quadra da escola em um novo espaço de aprendizagem e convivência.
O projeto surgiu como uma extensão das ações preventivas já desenvolvidas nas unidades escolares, ampliando o trabalho realizado pelo GCI na Escola, que aborda temas como bullying, prevenção ao uso de drogas, violência doméstica e cidadania. A proposta incorpora o esporte como mais uma ferramenta de aproximação com os estudantes e de promoção da disciplina, do respeito e da convivência.
A iniciativa começou em 30 de abril, com a aula inaugural na Escola Estadual Randolfo Moreira Fernandes, e atualmente reúne 26 alunos. As aulas acontecem às terças e quintas-feiras, às 19h, no contraturno, com estudantes dos períodos da manhã e da tarde.
Mais do que ensinar uma modalidade esportiva, o projeto nasceu com a intenção de trabalhar aspectos que fazem parte da formação dos jovens. A escolha dos participantes, por exemplo, foi feita pela direção e pela coordenação da escola, mesclando estudantes que precisavam melhorar o comportamento com outros que apresentavam bom desempenho e poderiam aproveitar a oportunidade.
A permanência no projeto também está relacionada à convivência escolar. Segundo o guarda civil Murillo Ferreira, um dos responsáveis pela iniciativa, os alunos precisam manter um bom comportamento na escola para continuar participando das atividades.
“A gente quer elevar a disciplina dos alunos e, para isso, o comportamento deles também precisa melhorar na escola. Se não houver essa mudança, eles podem perder a vaga no projeto.”
Quando o esporte cria pertencimento
Um dos aspectos que mais chamam a atenção nos primeiros meses do projeto é a adesão dos estudantes. Segundo Murillo, a turma registra cerca de 90% de presença.
O número ganha significado quando observado para além da frequência. Para uma escola, conseguir fazer com que o estudante queira permanecer naquele espaço também é uma questão educacional.
Murillo conta que alguns alunos que inicialmente demonstravam desconfiança em relação à presença da Guarda Civil na escola passaram a estabelecer uma relação diferente depois da experiência com o jiu-jitsu.
Um dos estudantes, segundo ele, inicialmente o observava com estranhamento. Depois de entrar para o projeto, passou a treinar, recebeu seu kimono e construiu uma relação de proximidade com os responsáveis pelas aulas.
“Agora, quando eu vou treinar lá, eles querem tirar foto comigo, querem tirar foto com o China. É uma relação muito diferente da que existia no começo.”, relata.
A mudança é simbólica. O profissional que antes era associado pelos estudantes à figura de autoridade passa a ocupar outro lugar: o de alguém que participa da comunidade escolar, compartilha uma atividade e constrói vínculos.
“A gente vai criando uma relação muito próxima com eles. Vira uma família”, resume Murillo.
Jiu-jitsu como ferramenta educativa
A proposta também parte de uma característica própria da modalidade: a necessidade de tomar decisões sob pressão, respeitar o adversário e reconhecer o momento de continuar ou interromper uma ação.
Murillo começou a praticar jiu-jitsu há pouco mais de um ano e vê na modalidade ensinamentos que ultrapassam o esporte. Para ele, a experiência ajuda a desenvolver resiliência e respeito mútuo.
“O jiu-jitsu deixa você extremamente gentil, porque, quando você oferece seu corpo para lutar com outra pessoa, existe um respeito mútuo. Ela está oferecendo o corpo dela e você, o seu”
É justamente essa dimensão que interessa quando o esporte entra no ambiente educacional. O tatame passa a ser também um espaço para trabalhar regras, limites, responsabilidade e convivência.
O projeto conta com o apoio da Secretaria de Esportes, que disponibiliza o professor de Educação Física e faixa-preta de jiu-jitsu Guilherme China Gardinalli para participar dos treinamentos e conduzir as aulas junto com Murillo. A iniciativa também conta com a colaboração de voluntários e de Guardas Civis com graduação na modalidade, que auxiliam nas atividades.
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