Publicado em 22/09/2026 às 09h38 Indaiatuba Cultura e lazer
Ana Maura Tomesani encontrou em relatos sobre a Covid a matéria-prima para seu primeiro livro infantil.
Foto: Divulgação
CULTURA
Flávia Girardi
Algumas histórias nascem da imaginação. Outras, da necessidade de não deixar que determinadas memórias se percam. Foi ouvindo relatos de pessoas que atravessaram a pandemia da Covid-19 em diferentes regiões do país que a indaiatubana Ana Maura Tomesani encontrou a matéria-prima para seu primeiro livro infantil.
Pesquisadora do Centro de Pesquisa em Conflito e Paz (CPP), ligado ao Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais (NUPRI) da Universidade de São Paulo (USP), Ana Maura também é cofundadora da Plataforma Periferias na Pandemia, iniciativa criada há seis anos pelo CCP/NUPRI/USP em parceria com a Fundação Perseu Abramo para reunir testemunhos de moradores de periferias de diferentes partes do Brasil.
Foi desse arquivo de vozes, experiências e territórios que surgiu a literatura. Na obra, o leitor acompanha Kauan, um menino que participa de um projeto escolar de troca de cartas. A cada correspondência, crianças de diferentes lugares contam como viveram a pandemia, revelando realidades que, muitas vezes, estão muito distantes umas das outras.
“Eu li os testemunhos e já falei: tem que ter uma carta com esse testemunho”, conta Ana Maura.
As histórias reais deram origem às cartas do livro, preservando a relação com os contextos em que foram registradas. O resultado é uma narrativa infantil que fala sobre um período ainda recente, mas que deixou marcas profundas e que pode ser revisitado pelas novas gerações a partir de um lugar de escuta e compreensão. A autora propõe um encontro entre diferentes realidades brasileiras. “Ele é do Brasil inteiro. Ele fala do Brasil inteiro ali”, explica.
Essa dimensão talvez seja uma das maiores riquezas da obra. Para uma criança de Indaiatuba, por exemplo, imaginar como foi viver aquele período em uma comunidade, em um território quilombola ou indígena pode não ser simples. São experiências que dificilmente fazem parte do cotidiano de todas as crianças, mas que também compõem a história recente do país. “Eu acho muito interessante que uma criança, por exemplo, de Indaiatuba, tenha esse conhecimento”, afirma.
A literatura, nesse sentido, torna-se uma espécie de ponte. Por meio das cartas, crianças que nunca se encontraram podem conhecer outras formas de viver, sentir e enfrentar uma mesma crise. E é justamente nesse encontro que surgem temas como empatia, solidariedade, diversidade e pertencimento.
A relação de Ana Maura com Indaiatuba também atravessa esse olhar. Moradora da cidade desde a infância, ela revisita as próprias memórias ao lembrar da convivência entre crianças de diferentes condições sociais no bairro Pau Preto. A lembrança de um cotidiano mais diverso ajuda a autora a refletir sobre as experiências que as crianças de hoje têm — e sobre aquilo que podem deixar de conhecer quando vivem em universos muito delimitados.
Por isso, o livro não termina nas páginas. Ana Maura quer levá-lo para dentro das escolas de Indaiatuba e transformar a leitura em conversa. A proposta é apresentar a obra, dialogar com educadores e participar de atividades com os alunos, aproximando literatura, memória e educação.
“Eu estou muito disponível para ir nas escolas, para apresentar este conteúdo e para conversar com os professores”, afirma.
Em tempos em que tantas experiências são rapidamente substituídas por novas informações, registrar memórias também é uma forma de cuidar da história. E, quando essas memórias chegam às crianças por meio da literatura, ganham uma nova possibilidade: a de ensinar que, embora cada pessoa atravesse o mundo a partir de um lugar diferente, algumas experiências podem nos aproximar.
A pandemia foi uma delas. Agora, pelas mãos de Ana Maura, suas histórias encontram um novo caminho: o da infância.
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Os livros que conquistaram os leitores em 2026
O ano ainda não terminou, mas alguns títulos já se destacam entre os mais vendidos no Brasil. O ranking Nielsen-PublishNews, baseado nas vendas registradas em livrarias e grandes plataformas de comércio, mostra um mercado que segue aquecido e cada vez mais diverso.
1. Café com Deus Pai — Junior Rostirola
O fenômeno editorial que combina espiritualidade e reflexão cotidiana continua entre os favoritos dos leitores brasileiros.
2. Hábitos Atômicos — James Clear
A busca por mudanças pessoais mantém o livro de desenvolvimento pessoal entre os títulos mais procurados.
3. A Psicologia Financeira — Morgan Housel
Finanças, comportamento e escolhas pessoais se encontram em uma obra que segue despertando o interesse de leitores.
4. Mentes Extraordinárias — Alberto Dell’Isola
Com foco em criatividade, memória e aprendizagem, o livro aparece entre os destaques do mercado.
5. Do dia para a noite — Bobbie Goods
O fenômeno dos livros de colorir, que ganhou força entre crianças, jovens e adultos, também continua marcando o mercado editorial.
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