Publicado em 03/07/2026 às 13h57 Indaiatuba Cidades
Aposta feita na cidade levou R$ 26,6 milhões na Quina de São João
Foto: Divulgação
Por: Ana Paula Kuntz
Uma aposta registrada em Indaiatuba esteve entre as vencedoras da Quina de São João, no último domingo. O prêmio foi de R$ 26,6 milhões para cada um dos nove bilhetes que cravaram as cinco dezenas sorteadas (19, 32, 50, 73 e 75). No total, o concurso 7.051 distribuiu R$ 239 milhões em prêmios. Apostar faz parte da cultura nacional, com o próprio Governo Federal endossando a prática com as loterias administradas pela Caixa Econômica Federal, que existem há mais de 60 anos. Em épocas de competições como a Copa do Mundo, até os tradicionais bolões se tornam rotina. O problema não está na aposta em si, mas na chance de virar uma dependência.
O médico psiquiatra William Augusto, docente do curso de Medicina do Centro Universitário Max Planck (UniMAX) e integrante da equipe que elaborou o Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas, do Ministério da Saúde, explica que a aposta é uma questão que deve ser tratada como tema de saúde pública. “Com os aplicativos, a aposta está sempre à mão, gerando um cenário que facilita muito o desenvolvimento do transtorno do jogo.” Ele explica que há um componente genético, que causa uma espécie de “falta de freio”. Algumas pessoas passam a vida sem descobrir essa vulnerabilidade. Mas basta um gatilho — mesmo uma pequena aposta vitoriosa em bet — para iniciar um comportamento que pode evoluir para o transtorno.
Vale dizer que esse diagnóstico é diferente da compulsão por videogames ou jogos eletrônicos sem apostas financeiras: o que caracteriza a doença é justamente a promessa de ganho imediato, capaz de provocar uma intensa expectativa de prazer e estimular o cérebro a repetir aquele comportamento.“Os circuitos de recompensa ativados pelo jogo de aposta são os mesmos envolvidos na dependência de substâncias psicoativaso.”
Além do acompanhamento com psicólogos e psiquiatras, a rede pública oferece atendimento por meio dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que acolhem diferentes tipos de dependência comportamental, inclusive relacionados às apostas. Em alguns casos, medicamentos também fazem parte da recuperação.
Segundo dr. William, justamente por ser socialmente aceito, o problema costuma permanecer escondido durante muito tempo. "Diferentemente do álcool ou de outras drogas, a dependência em jogos costuma ser banalizada. A maioria dos pacientes procura ajuda apenas quando já perdeu o controle financeiro ou quando os prejuízos familiares e emocionais se tornaram muito graves."
Entre os comportamentos que devem causar alerta estão o aumento do tempo gasto no celular, o isolamento social, irritabilidade, tentativas constantes de recuperar perdas financeiras por meio de novas apostas e pedidos recorrentes de empréstimos acompanhados de mentiras para justificar a falta de dinheiro. A dependência também pode surgir associada a outros transtornos, como ansiedade, depressão e alcoolismo. "Quanto mais cedo a pessoa procura ajuda, maiores são as chances de se recuperar, reforçando que os CAPS estão têm capacidade para lidar com isso", conclui o especialista.
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