Publicado em 19/11/2026 às 14h31 atualizado em 19/10/2026 às 14h32 - Brasil Saúde
Foto: divulgação
A estimulação transcraniana por corrente contínua, conhecida pela sigla ETCC ou tDCS, vem sendo estudada como uma ferramenta de neuromodulação não invasiva capaz de modificar temporariamente a excitabilidade de determinadas áreas do cérebro. A técnica utiliza eletrodos posicionados sobre o couro cabeludo para aplicar uma corrente elétrica de baixa intensidade, com o objetivo de influenciar a atividade cerebral. Na neuropediatria, o interesse pelo método tem crescido principalmente em pesquisas que avaliam seu potencial como tratamento complementar em algumas condições neurológicas e do neurodesenvolvimento.
De acordo com a especialista em neuropediatria Nathiana Belgamo, a técnica deve ser entendida como uma ferramenta que pode integrar estratégias terapêuticas específicas, e não como um tratamento universal. “A estimulação transcraniana por corrente contínua busca modular a atividade de determinadas regiões cerebrais por meio de uma corrente elétrica de baixa intensidade. É uma técnica não invasiva e, quando utilizada dentro de protocolos adequados, pode ser estudada como recurso complementar ao tratamento convencional”, explica.
A ETCC utiliza dois ou mais eletrodos posicionados na cabeça e uma corrente elétrica contínua de baixa intensidade. Dependendo da montagem dos eletrodos, da intensidade e da duração da estimulação, o objetivo é aumentar ou reduzir a excitabilidade de determinadas regiões do cérebro. A sessão geralmente é realizada com o paciente acordado e não envolve anestesia ou cirurgia.
Nos últimos anos, ensaios clínicos e revisões científicas têm investigado a aplicação da neuromodulação em condições como epilepsia, transtorno do espectro autista, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, distúrbios motores e outras alterações neurológicas. Entretanto, os resultados ainda variam conforme a condição estudada, a idade do paciente, a região cerebral estimulada e o protocolo utilizado. Por isso, a evidência científica não permite considerar a ETCC como tratamento comprovado para todas essas situações.
“Na população pediátrica, precisamos ter ainda mais cuidado com indicação, idade, diagnóstico e protocolo. O cérebro da criança e do adolescente está em desenvolvimento, então não podemos simplesmente reproduzir protocolos utilizados em adultos. A avaliação precisa ser individualizada e feita por profissionais capacitados”, ressalta Nathiana.
Um dos pontos que chama atenção na técnica é justamente seu caráter não invasivo. Durante a aplicação, o paciente pode sentir formigamento, coceira ou uma sensação de aquecimento na região dos eletrodos. Esses efeitos costumam ser leves e transitórios, mas a segurança depende da seleção adequada do paciente e da utilização de equipamentos e protocolos apropriados.
A técnica também não deve ser confundida com a estimulação eletroconvulsiva, utilizada em contextos médicos completamente diferentes. Na ETCC, a corrente é de baixa intensidade e aplicada por meio de eletrodos sobre o couro cabeludo, sem provocar convulsões.
Segundo Nathiana Belgamo, outro cuidado importante é evitar expectativas de resultados imediatos ou promessas de cura. “A neuromodulação não substitui automaticamente medicamentos, terapias comportamentais, fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional ou outras abordagens que podem fazer parte do cuidado da criança. Quando existe indicação, a estimulação pode ser considerada dentro de um plano terapêutico mais amplo”, afirma.
A pesquisa sobre ETCC continua avançando, inclusive na busca por protocolos mais precisos e pela identificação dos pacientes que podem apresentar maior benefício. Para a neuropediatria, esse desenvolvimento é particularmente relevante, mas exige acompanhamento científico rigoroso antes que novas indicações sejam incorporadas à prática clínica de forma ampla.
“É uma área promissora, mas precisamos separar o que já apresenta evidências consistentes daquilo que ainda está sendo investigado. A indicação deve sempre partir de uma avaliação médica e considerar os riscos, benefícios e alternativas disponíveis para cada paciente”, conclui a especialista.
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