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ENTRE SALAS, CIDADES E ESCOLHAS

Quase metade dos professores universitários no Brasil mudou de emprego em menos de 20 anos

 Publicado em  02/11/2026 às 09h00  Indaiatuba  Educação


 A conclusão é de um estudo liderado por Ana Maria Carneiro, coordenadora do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas (NEPP)

A conclusão é de um estudo liderado por Ana Maria Carneiro, coordenadora do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas (NEPP)
Foto: UNICAMP

Existe uma imagem bastante consolidada sobre a carreira universitária: a do professor que ingressa em uma instituição, constrói ali sua trajetória acadêmica e permanece por muitos anos no mesmo lugar. Para quase metade dos docentes brasileiros, porém, a realidade é outra.
Um estudo liderado por Ana Maria Carneiro, coordenadora do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas (NEPP) da Unicamp, mostra que 46,9% dos professores do ensino superior brasileiro tiveram pelo menos um episódio de mobilidade empregatícia entre 2003 e 2021. Em outras palavras, quase um em cada dois docentes deixou uma instituição para trabalhar em outra ou passou a acumular vínculos profissionais.
Publicado no periódico Research in Higher Education, o levantamento acompanhou professores de instituições públicas e privadas de todo o país e ajuda a olhar para a carreira acadêmica por uma perspectiva menos estática. Por trás de uma mudança de emprego pode existir um concurso, uma busca por estabilidade, uma oportunidade profissional, a necessidade de complementar a renda ou, simplesmente, o desejo de voltar para perto de casa.
“Buscamos analisar a mobilidade acadêmica dentro do Brasil, que significa mobilidade de emprego – sair de uma instituição e entrar em outra –, ou mesmo acumular vínculos empregatícios entre instituições”, explica Carneiro.
O trabalho foi desenvolvido por pesquisadores do Laboratório de Estudos sobre a Organização da Pesquisa e da Inovação (Lab-Geopi), dentro do projeto Pesquisa da Pesquisa e da Inovação, coordenado por Sergio Luiz Monteiro Salles-Filho e financiado pela Fapesp.

QUATRO CAMINHOS
Para entender essas trajetórias, os pesquisadores recorreram aos microdados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério do Trabalho e Emprego. A escolha permitiu analisar os vínculos formais de trabalho de professores do ensino superior em uma escala nacional.
A partir desses dados, foram identificados quatro padrões principais: professores que permanecem com um único vínculo; aqueles que acumulam cargos em diferentes instituições; os que fazem uma transição de uma instituição para outra; e os que mudam de emprego depois de um período de interrupção.
A pesquisa também revela que a mobilidade não acontece da mesma maneira em todos os espaços acadêmicos.
Instituições intensivas em pesquisa e com forte presença de programas de pós-graduação, como grandes universidades públicas, apresentam taxas menores de mobilidade. Já a maior rotatividade aparece em faculdades e centros universitários privados e também em instituições públicas voltadas prioritariamente ao ensino.
Há uma diferença importante entre mudar porque surgiu uma oportunidade e mudar porque é necessário.
No setor privado, professores remunerados por hora frequentemente acumulam vínculos em diferentes instituições para compor sua renda. Nesse cenário, a mobilidade pode estar menos relacionada à construção planejada de uma carreira e mais à necessidade de garantir trabalho suficiente.
“Grande parte dessas mobilidades no setor privado ocorre como uma forma de buscar sobrevivência, mais do que buscar melhores condições de trabalho. Sobrevivência no sentido de garantir um salário”, observa a pesquisadora.
No setor público, por outro lado, a mudança pode seguir uma lógica diferente. Em determinadas situações, o professor aceita inicialmente uma remuneração menor ao deixar uma instituição privada para ingressar no serviço público, considerando fatores como estabilidade e condições de trabalho.

QUANDO O TERRITÓRIO ENTRA NA CARREIRA
A mobilidade acadêmica brasileira também é, em grande medida, uma história de distâncias relativamente curtas.
Embora seja possível imaginar professores atravessando o país em busca de oportunidades, a pesquisa mostra que a maior parte das movimentações acontece dentro do próprio estado ou da mesma região geográfica. Muitos deslocamentos não ultrapassam 50 quilômetros, especialmente em regiões metropolitanas e entre municípios próximos.
O fenômeno ganhou força entre 2007 e 2014, período que coincidiu com o Reuni — Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais. A expansão das universidades federais e a interiorização de vagas e concursos modificaram o mapa das oportunidades acadêmicas brasileiras.
Para alguns docentes, a mudança representou uma possibilidade de trabalhar em outra cidade. Para outros, significou justamente uma etapa até conseguir retornar para mais perto de suas origens.
O mapa, portanto, não é apenas profissional. É também afetivo.
Escolher onde trabalhar significa, muitas vezes, escolher onde morar, quanto tempo gastar no deslocamento, de quem ficar perto e que tipo de vida construir fora da universidade.

MULHERES SE MOVEM MENOS 
Quando o gênero entra na análise, as diferenças ficam ainda mais evidentes.
Segundo a pesquisa, as mulheres realizam deslocamentos menores do que os homens. A explicação não pode ser reduzida a uma única variável, mas o estudo também encontrou diferenças associadas à maternidade, aos salários e à duração dos vínculos.
Mulheres que tiveram licença-maternidade no primeiro emprego tendem a apresentar menor valor de hora-aula e contratos mais curtos.
A distribuição entre os tipos de instituições também é desigual. Os homens aparecem em maior proporção em instituições de ensino tecnológico ou intensivas em pesquisa, enquanto as mulheres têm maior presença em instituições mais voltadas ao ensino de graduação.
É um dado que amplia a discussão sobre mobilidade. Afinal, a possibilidade de mudar de cidade, aceitar uma oportunidade distante ou reorganizar completamente uma trajetória profissional não está disponível da mesma maneira para todos.
A carreira acadêmica pode parecer individual, mas é atravessada por fatores bastante concretos: renda, filhos, vínculos familiares, localização das instituições e condições de trabalho.


UMA CARREIRA MENOS LINEAR
O estudo também ajuda a desconstruir outra ideia: a de que mobilidade necessariamente representa ascensão.
Nem toda mudança significa ganhar mais. Nem toda permanência significa estagnação.
Um professor pode trocar uma instituição por outra para conquistar estabilidade. Pode aceitar inicialmente um salário menor em busca de melhores condições. Pode acumular aulas em diferentes faculdades para aumentar a renda. Pode mudar de cidade e, algum tempo depois, fazer outro movimento para se aproximar novamente da família.
As trajetórias acadêmicas, assim como tantas outras carreiras contemporâneas, são menos lineares do que costumamos imaginar.
E talvez seja justamente essa a principal contribuição do levantamento: mostrar que por trás do currículo, do título acadêmico e da instituição onde um professor leciona existe uma história de escolhas, circunstâncias e deslocamentos.
A pesquisa da Unicamp ainda ganhou uma dimensão internacional. Os resultados levaram os pesquisadores a integrar a quarta rodada do consórcio Future Academic Profession, iniciativa que investiga os desafios da profissão docente em diferentes países.
A discussão, portanto, está longe de terminar. Se quase metade dos professores universitários brasileiros mudou de emprego em menos de duas décadas, compreender essas movimentações significa também perguntar que tipo de carreira estamos construindo para quem ensina, pesquisa e forma as próximas gerações.
Porque, no fim, a universidade também se move. E seus professores, com ela.
 

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  •  A conclusão é de um estudo liderado por Ana Maria Carneiro, coordenadora do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas (NEPP)

    A conclusão é de um estudo liderado por Ana Maria Carneiro, coordenadora do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas (NEPP)
    Foto: UNICAMP

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