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De volta ao fazer: por que os ofícios manuais voltaram a atrair os jovens

Em um mundo de telas e inteligência artificial, cursos técnicos, padarias artesanais e feiras de artesanato registram procura crescente

 Publicado em  02/11/2026 às 10h00  Indaiatuba  Educação


O Mapa do Trabalho Industrial 2025-2027, da CNI e do SENAI, estima que o Brasil precisará qualificar 14 milhões de trabalhadores até 2027, com maior carência de profissionais nas áreas de logística, c

O Mapa do Trabalho Industrial 2025-2027, da CNI e do SENAI, estima que o Brasil precisará qualificar 14 milhões de trabalhadores até 2027, com maior carência de profissionais nas áreas de logística, c
Foto: Mais Expressão

Ana Paula Kuntz

 

A tese circula há alguns anos em reportagens e redes sociais: a geração que nasceu com o smartphone na mão estaria redescobrindo o trabalho manual. Marcenaria, gastronomia, jardinagem, artesanato e fabricação digital aparecem como caminhos de carreira, não apenas hobbies. A pergunta que cabe é se esse fenômeno é real ou narrativa de internet. Os números disponíveis sugerem que há consistência na tendência

O indicador mais forte vem da educação. O Censo Escolar do ano passado, publicado pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, do Governo Federal), registrou 3,19 milhões de matrículas na educação profissional e tecnológica, um salto de 68,4% em relação a 2021, quando eram 1,89 milhão. O SENAI, principal rede de formação industrial do país, contabilizou mais de 225 mil matrículas em 2024 e, na pesquisa de acompanhamento de egressos, apontou que 85,6% dos alunos de cursos técnicos conseguiram emprego nos últimos dois anos, o melhor resultado da série histórica. Em São Paulo, a rede estadual supera 1 milhão de matrículas anuais em 90 unidades.

A demanda por esses profissionais é o outro lado da moeda. O Mapa do Trabalho Industrial 2025-2027, da CNI e do SENAI, estima que o Brasil precisará qualificar 14 milhões de trabalhadores até 2027, com maior carência de profissionais nas áreas de logística, construção, manutenção e metalmecânica. A escassez já é sentida no chão de fábrica: pesquisa da CNI de setembro de 2025 apontou que 69% das indústrias brasileiras relatam dificuldade para contratar. O contraste com o mercado geral é evidente, porque a taxa de desemprego fechou 2025 na mínima histórica de 5,1% e, mesmo assim, as vagas técnicas seguem abertas.

 

Blindagem contra I.A.

O fenômeno também tem leitura cultural. Levantamentos internacionais mostram que parte da Geração Z passou a enxergar nas profissões manuais uma blindagem contra a automação, já que ofícios como marcenaria, eletricidade e gastronomia são difíceis de substituir por inteligência artificial. A consultoria Deloitte encontrou cerca de 40% dos jovens relatando estresse frequente, o que alimenta a busca por atividades com resultado físico e tangível, fora da tela. Não por acaso, a fabricação digital cresce no mesmo ritmo: o mercado brasileiro de impressão 3D, estimado em US$ 730 milhões em 2025, deve triplicar até 2034, segundo a consultoria IMARC. O ofício manual, assim, não é antítese da tecnologia, mas seu complemento.

Cenário local

Em Indaiatuba, a tendência encontra terreno fértil. Tendo aproximadamente 269,6 mil habitantes, 99 mil empregados formais e 51,6 mil empresas ativas em agosto de 2026, segundo o Observatório Sebrae, o município tem vocação industrial histórica e rede de formação técnica consolidada. A Escola SENAI "Comendador Santoro Mirone" oferece cursos que vão de panificação, confeitaria e gastronomia a design de mobiliário e fabricação mecânica, exatamente as áreas apontadas como mais demandadas. Na cultura, a Feira de Artesanato da Praça Rui Barbosa reúne 60 barracas todos os sábados, e a prefeitura registrou crescimento de 17,96% no número de empresas da cidade em 2025, movimento em que pequenos negócios de alimentação e artesanato têm peso.

O setor de panificação, inclusive, ilustra em nível nacional a valorização do fazer. São mais de 70 mil padarias no Brasil, um setor que faturou R$ 105,85 bilhões em 2021 e deve chegar a R$ 160 bilhões em 2025, segundo a ABIP (Associação Brasileira da Indústria de Panificação e Confeitaria), com 2,5 milhões de trabalhadores envolvidos. A abertura de novas padarias cresceu 26% em 2025, conforme o Sebrae, puxada pela demanda por pães artesanais e fermentação natural, técnica que exige tempo e mão, o oposto da lógica da automatização. No artesanato de forma mais ampla, o Sebrae estima que a cadeia movimente cerca de R$ 100 bilhões por ano e esteja presente na economia de 67% dos municípios brasileiros, com 686 mil empresas registradas no setor.

 

Beleza que vem com a dureza

É preciso, porém, evitar a romantização. O trabalho manual também é informalidade, renda instável e desgaste físico. Grande parte dos artesãos e pequenos produtores não tem carteira assinada nem proteção previdenciária, e o sucesso das redes sociais esconde a maioria que depende de feiras e encomendas para sobreviver. A valorização cultural não substitui políticas de formalização, crédito e qualificação. A tendência é real, os números confirmam, mas transformá-la em oportunidade para todos exige estrutura, não apenas entusiasmo.

O que os dados indicam, em resumo, é que a volta dos ofícios não é moda passageira nem nostalgia: é resposta racional a um mercado que valoriza o que a máquina ainda não faz sozinha.

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  • O Mapa do Trabalho Industrial 2025-2027, da CNI e do SENAI, estima que o Brasil precisará qualificar 14 milhões de trabalhadores até 2027, com maior carência de profissionais nas áreas de logística, c

    O Mapa do Trabalho Industrial 2025-2027, da CNI e do SENAI, estima que o Brasil precisará qualificar 14 milhões de trabalhadores até 2027, com maior carência de profissionais nas áreas de logística, c
    Foto: Mais Expressão

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