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Colunistas / Alexandre Novaes

O piso rachou. Mas será que o problema está no piso?

Postado em 04/09/2026 às 11h54


É uma situação comum.

O piso de uma casa começa a trincar, algumas peças se soltam ou um trecho afunda. A conclusão parece óbvia:

“Esse piso não prestou. Vamos trocar.”

Troca-se o revestimento, refaz-se o contrapiso, instala-se um material melhor. Algum tempo depois, o problema reaparece.

Talvez porque o piso nunca tenha sido a causa.

Quando está apoiado diretamente sobre o terreno, o piso depende do que existe abaixo dele: base, sub-base, aterros e, finalmente, o solo. Se essas camadas cedem, recalcam ou perdem suporte, o piso acompanha o movimento.

Na indústria ocorre confusão semelhante:

“Meu piso foi dimensionado para três toneladas por metro quadrado.”

Isso não significa que todo o sistema suportará essa carga sem deformações. Espessura, concreto e armaduras podem estar corretamente dimensionados, mas a carga precisa chegar ao terreno. Se o apoio não estiver adequado, o piso poderá trincar mesmo submetido a cargas menores.

Aterro mal compactado, solo inadequado, água ou perda localizada de suporte podem provocar deformações que aparecem justamente onde conseguimos enxergá-las: na superfície.

Esse é o ponto: a manifestação e a causa nem sempre estão no mesmo lugar.

Por isso, diante de um piso que trinca ou afunda, antes de perguntar “qual piso colocar no lugar?”, existe uma pergunta mais importante:

Por que este piso se movimentou?

Porque trocar o acabamento pode resolver a aparência.

Mas não corrige o que está acontecendo embaixo dele.

Um aterro mal executado, material inadequado, compactação insuficiente, presença de água, perda localizada de suporte ou características desfavoráveis do próprio terreno podem produzir deformações que acabam se manifestando justamente onde conseguimos enxergá-las: no piso.

E talvez esteja aí a origem do erro.

Nós vemos a trinca no porcelanato.

Vemos a fissura no concreto.

Vemos o piso afundado.

Naturalmente, nossa primeira reação é culpar aquilo que estamos vendo.

Mas, em engenharia, a manifestação e a causa frequentemente estão em lugares diferentes.

Por isso, diante de um piso que trinca, afunda ou se deforma repetidamente, a primeira pergunta não deveria ser:

“Que piso vamos colocar no lugar?”

Deveria ser:

“Por que este piso se movimentou?”

Porque um revestimento novo pode mudar completamente a aparência de um ambiente.

Mas nenhum porcelanato, concreto ou acabamento sofisticado consegue obrigar o terreno que está abaixo dele a se comportar bem.



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